Artigo: Pelo olhar de um curador, por Mateus Meireles

Em pesquisa feita com 41 galerias, a Latitude – Platform for Brazilian Art Galleries Abroad mostrou que, apesar do cenário desfavorável em 2014, acarretado pela crise econômica, eleições e Copa do Mundo, o setor das artes se manteve incólume. 51,2% dos estabelecimentos consultados registraram aumento no volume de negócios e 26,9% mantiveram o faturamento do ano anterior. Desde a década de 1980 o segmento cresce gradativamente. Com a eclosão das megaexposições, bienais e museus contemporâneos, inúmeras empresas públicas e privadas têm voltado seus olhares para a área, por acreditarem ser um nicho rentável de mercado.

Esse crescimento trouxe uma demanda importante para a cultura: a formação de profissionais capacitados para preparar, conceber, montar e coordenar os grandes eventos. Com a incorporação de produções e suportes diversos no sistema das artes, o curador se firmou no mercado. Criativo, critico, apaixonado por histórias e sensível, o profissional, hoje, é o principal responsável por estabelecer a relação entre as obras de artes e o público. É dele a função de selecionar artistas para exposições e, ainda, escolher minuciosamente quais trabalhos serão expostos.

Guiomar Lobato começou sua trajetória antes mesmo do termo existir. Formada em Museologia, passou a trabalhar em antiquários, há 40 anos. Conforme foi acumulando experiência, decidiu se especializar em cursos diversos, nas áreas de história, música, literatura, além de arte. “Os antigos curadores vêm de diversas áreas, porque não existiam cursos específicos. Eram intelectuais que gostavam de arte e acabavam ingressando no segmento”, conta a curadora do Museu Inimá de Paula e da Galeria de Arte do Pampulha Iate Clube (PIC).

A disseminação e popularização da cultura nos centros urbanos do Brasil, nos últimos anos, contribuíram para aumentar a demanda por novos nomes no mercado. Hoje, já existem cursos, graduações e pós-graduações de curadoria. Sandra Mimoto, por exemplo, se formou pelo Senac, em São Paulo e passou a atuar profissionalmente após se aposentar. “Sempre tive um interesse pela área e estudava bastante, mas acho válido fazer um curso, pois te dá um panorama geral sobre o que é a arte, sua história e até do mercado.”, diz.

Com titulo oficial ou não de curadoria, Guiomar e Sandra são unânimes: um bom profissional precisa de mais. “O que define o sucesso de nossas carreiras é o quanto lemos, estudamos, pesquisamos e nos atualizamos. Ser curador não é só conhecer técnicas de pintura ou escultura. Precisa-se saber onde aquela obra está inserida no mundo”, fala Sandra. “É através de nossa bagagem que vamos conseguir contextualizar um quadro”, complementa Guiomar.

Segundo a mesma pesquisa Latitude, o salário base de um funcionário é de dois a cinco salários mínimos. Mas essa média varia de acordo com o faturamento da galeria ou do museu. A média dos salários por empresa é de 7,5 salários mínimos, mas nas galerias que movimentam mais de R$ 3,6 milhões ao ano, o valor é de R$ 9.830, e naquelas cujo faturamento é inferior a R$ 3,6 milhões ao ano, o salário é de R$ 2.933.

Relacionamento com o artista

 

O trabalho de um curador não se resume a observar e selecionar obras de arte.  Muitas vezes, é preciso não só escolher, como aconselhar. Quando encontra profissionais em desenvolvimento, Guiomar não hesita em apontar as imperfeições. Um curador precisa, ainda, acompanhar o trabalho do artista que irá assessorar. “Só assim é possível reconhecer até que ponto ele está criativo ou repetitivo”, conta.

Para se tornar um bom artista plástico é necessário, em primeiro lugar, respeitar o seu tempo. Descomplicar. Descansar. Esquecer a obra. “A inspiração não é igual todos os dias. O importante é ter disciplina para parar”, aconselha.  O melhor de sua profissão? Guiomar tem a resposta na ponta da língua: “quando o artista vê os quadros expostos, com todas aquelas luzes, ele tem uma compreensão melhor de sua arte. É gratificante”, diz.

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